Imagine uma função contínua cujo gráfico começa abaixo do eixo $x$ e termina acima dele.

Para sair de um valor negativo e chegar a um valor positivo, a curva precisa cruzar o zero em algum ponto.

Essa ideia simples é exatamente o que o Teorema do Valor Intermediário afirma.

Esse resultado é um dos mais importantes do cálculo, porque garante a existência de soluções mesmo quando não sabemos encontrá-las exatamente.

Neste artigo, vamos entender:

  • o que o teorema diz;
  • por que a continuidade é essencial;
  • como aplicar o resultado em exercícios e problemas matemáticos.

Enunciado do Teorema

Seja $f:[a,b]\to\mathbb{R}$ uma função contínua no intervalo fechado $[a,b]$. Se $d$ é um número entre $f(a)$ e $f(b)$, então existe pelo menos um número $c\in(a,b)$ tal que $f(c)=d$.

Em particular, se $f(a)\cdot f(b)<0$, isto é, se $f(a)$ e $f(b)$ possuem sinais opostos, então existe $c\in(a,b)$ tal que $f(c)=0$.

Nesse caso, dizemos que a função possui pelo menos uma raiz no intervalo $(a,b)$.

Exemplo básico

Considere a função $f(x)=x^3-x-2$.

Como polinômios são contínuos, a função é contínua em todo $\mathbb{R}$.

Vamos calcular alguns valores:

$$f(1)=1^3-1-2=-2\quad\text{e}\quad\ f(2)=2^3-2-2=4.$$

Perceba que $f(1)<0$ e $f(2)>0$.

Como a função é contínua e houve troca de sinal, o Teorema do Valor Intermediário garante que existe algum número $c\in(1,2)$ tal que $f(c)=0$.

Ou seja, a equação $x^3-x-2=0$ possui pelo menos uma raiz entre 1 e 2.

Demonstração.

Defina $$A=\{x\in[a,b]; f(x)<d\}.$$ O conjunto $A$ é não vazio, pois $a\in A$. Além disso, $A$ não possui um maior elemento.

De fato, seja $\alpha\in A$. Desse modo, $f(\alpha)<d$. Como $f(b)>d$, segue que $\alpha\neq b$ e, portanto, $\alpha<b$.

Pela continuidade de $f$ em $\alpha$, existe $\delta>0$ tal que, para todo $x\in[a,b]$ satisfazendo $|x-\alpha|<\delta,$ temos

$$
|f(x)-f(\alpha)|<d-f(\alpha). \tag{1}
$$ Além disso, podemos tomar $\delta$ suficientemente pequeno de modo que $$
[\alpha,\alpha+\delta]\subset[a,b].$$

Agora, seja $x\in[\alpha,\alpha+\delta)$. Então, por $(1)$,

$$
f(x)<f(\alpha)+d-f(\alpha)=d.
$$

Portanto, para todo $x\in[\alpha,\alpha+\delta)$, vale que $f(x)<d$. Isso mostra que $A$ não possui um maior elemento.

Agora, seja $c=\sup A.$

Como $c\in\overline{A}$, existe uma sequência $(x_n)_{n\in\mathbb{N}}$, com $x_n\in A$ para todo $n$, tal que

$$
\lim_{n\to\infty}x_n=c.
$$

Como cada $x_n$ pertence a $A$, temos $f(x_n)<d,$ para todo $n\in\mathbb{N}$. Portanto,

$$
\lim_{n\to\infty}f(x_n)\leq d.
$$

Além disso, como $f$ é contínua em $c$, segue que $
f(c)=\displaystyle\lim_{n\to\infty}f(x_n).$

Logo, $$f(c)\leq d\tag {2}.$$

Como $A$ não possui maior elemento, temos $c\notin A$, o que implica $f(c)\geq d$. Daí e de (2), segue que $f(c)=d$.

Aplicações do Teorema

O Teorema do Valor Intermediário possui várias aplicações em matemática e computação.

Uma das mais importantes é garantir a existência de raízes de equações.

Por exemplo, ao estudar $f(x)=x^5-x-1$ podemos calcular valores da função em alguns pontos e verificar se houve troca de sinal.

Se isso acontecer, o teorema garante que existe uma raiz no intervalo.

O resultado também é a base do método da bisseção, usado para aproximar soluções numéricas.

A ideia é simples:

  • encontrar um intervalo onde a função troca de sinal;
  • dividir o intervalo ao meio;
  • repetir o processo até obter uma boa aproximação da raiz.

Exemplo

Considere:

$$
f(x)=x^2-2
$$

Queremos aproximar $\sqrt{2}$, que é a raiz da equação:

$$
x^2-2=0
$$

Calculando:

$$
f(1)=-1
$$

$$
f(2)=2
$$

Como houve troca de sinal, existe uma raiz em $(1,2)$.

O ponto médio é:

$$
m=\frac{1+2}{2}=1{,}5
$$

Calculando:

$$
f(1{,}5)=1{,}5^2-2=0{,}25
$$

Como:

$$
f(1)<0
\quad\text{e}\quad
f(1{,}5)>0,
$$

a raiz está no intervalo $(1,1{,}5)$. Vamos repetir o processo no intervalo $(1,1{,}5)$.

O novo ponto médio é:

$$
m=\frac{1+1{,}5}{2}=1{,}25
$$

Agora calculamos:

$$
f(1{,}25)=1{,}25^2-2
$$

Como:

$$
1{,}25^2=1{,}5625,
$$

temos:

$$
f(1{,}25)=1{,}5625-2=-0{,}4375
$$

Portanto:

$$
f(1{,}25)<0
$$

e já sabíamos que:

$$
f(1{,}5)>0
$$

Logo, a raiz está no intervalo:

$$
(1{,}25,1{,}5)
$$

Perceba que o intervalo ficou ainda menor. Repetindo esse processo várias vezes, conseguimos aproximações cada vez mais precisas para $\sqrt{2}$.

Conclusão

O Teorema do Valor Intermediário mostra que funções contínuas não podem “pular” valores.

Se uma função contínua assume dois valores diferentes, então ela também assume todos os valores entre eles.

Em particular, quando ocorre troca de sinal, o teorema garante a existência de pelo menos uma raiz no intervalo.

Esse resultado é um dos mais importantes da análise matemática, pois conecta:

  • continuidade;
  • comportamento geométrico;
  • existência de soluções.

Além disso, ele serve de base para vários métodos numéricos e teoremas mais avançados do cálculo.

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